sábado, 25 de novembro de 2017

REMINISCÊNCIA - Ziraldo

Nasci numa pequena cidade de Minas. Até aí nada demais. Muita gente nasce em cidades pequenas, distantes e quietas. Seria feliz, de qualquer maneira, se quem lê neste instante pudesse saber a alegria que existe em se nascer num lugar assim, em que as ruas pequenas e estreitas, as altas palmeiras, a água macia da chuva que cai sempre, as muitas estrelas e a lua, as pedrinhas das calçadas, a meninada, a carteira da sala de aula, a mestra e mais uma quantidade destas lembranças simples sejam, mais tarde, influências reais na vida da gente.
Na vida de quem, afinal, preferiu enfrentar a cidade grande: as águas desse mar, a luz dessas lâmpadas frias, a sala fechada, triste e sem perspectivas em que se ganha a vida, a cadeira quente e insegura das tardes de ir e vir — pura fadiga — das empresas, a luta, a dura luta de ser alguém, um peixe grande em mar estranhamente grande. A verdade é que, um dia, a pensar e refletir na grama macia da pracinha da matriz, a criança decidiu sair.
E a estrada se abriu a sua frente. Vir era uma idéia. Fixa. Caminhar era fácil.
A chegada: a rua imensa, as buzinas, as luzes, sinal verde, aquela cidade grande, grande ali, na sua frente. Cada face, cada ser que passava — pra lá e pra cá — inquietamente, tanta gente, suada, apressada, sem alegria, sem alma, a alma cerrada, enrustida, cada triste surpresa era a chegada.
Cheguei. Um táxi. A mala. As esquinas. Está bem, mas, que fazer? Sentei e pensei. Pela janela da casa alta vai a vida. Seria a vida? E disse a primeira frase na cidade grande, as primeiras palavras diante da grande luta e as palavras eram: Meu Deus, que saudade! E nem um dia me separava da pracinha da matriz. Cada dia que, a seguir, vi passar, esqueci.
Diante da máquina, neste instante, há uma distância imensa entre aquele dia na missa cantada na minha igrejinha e este dia em que, diante de mim, diante de minha mulher e da minha casa feita de cidade grande, minhas filhas brincam de ser gente grande.
E elas. Que vai ser delas? Sem palmeiras, sem um pai de ar grave; sem entender a chuva a cair em jardins humildes, nas margaridas branquinhas; sem entender de lua e de estrelas — que céu aqui, pra se ver nem se vê —, sem brincar na lama das ruas, a lama das chuvas, casca de palmeira, descer as barracas, nadar sem mamãe saber, nas águas escuras, fim de quintal, quintal, quintal? sem quintal? pedrinha de calçada, marcar a canivete sua inicial na carteira da sala. Ainda bem que nasceram meninas.
Já é diferente. Será que é? Sei lá. Entre a chegada e este instante, lembrança nenhuma. Sei que cheguei.
E sei mais: que esta página está é uma grande besteira, dura de cintura, sem graça, uma m... Já se vê que quem nasceu para caratinguense nunca chega a Rubem Braga. E também tem mais: quem é capaz de escrever uma página literária decente — igual a essa — sem usar uma vez sequer a letra O?

AMOR SEM ADEUS - Dick Farney

                    

terça-feira, 21 de novembro de 2017

GRANDE SERTÃO: A VIAGEM

Algumas viagens entram para a história. Outras entram também para a literatura. Foi o que aconteceu com o escritor João Guimarães Rosa, quando há 65 anos, em maio de 1952, se lançou numa empreitada pelo sertão mineiro que marcaria sua vida e sua obra.
Acompanhado de oito vaqueiros e levando 300 cabeças de gado, percorreu em dez dias os 240 quilômetros que separam Três Marias e Araçaí, na região central de Minas Gerais, sua terra natal. Trazia amarrada ao pescoço uma caderneta, onde anotava tudo que via e ouvia - as conversas com os vaqueiros, as sensações, as dificuldades e tudo que brotasse daquele mundo que ele reencontrava depois de anos vivendo como diplomata no exterior.
As cadernetas, hoje parte do acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, foram reunidas em dois diários, que Rosa chamou de A Boiada 1 e A Boiada 2. As anotações seriam utilizadas como elementos de suas próximas obras - entre elas, Corpo de Baile (lançado em 1956), Tutaméia (de 1967) e Grande Sertão: Veredas (1956).
No dia 16 de maio, o escritor chegava à fazenda Sirga, de seu primo Francisco Moreira, em Três Marias. Três dias mais tarde, a boiada partiria para a viagem, fazendo seu pouso em várias fazendas e vilarejos da região.
Rosa fez questão de acompanhar o dia-a-dia dos vaqueiros em tudo, comendo da mesma comida - carne-seca, toucinho, feijão e arroz com pequi - e dormindo nos mesmos locais. Em Barreiro do Mato, por exemplo, teria dormido dentro de uma grande forma de rapadura, um enorme tacho côncavo, e em vários outros locais passou a noite em colchões de palha de milho, comuns naquela época.
Já próximo a Cordisburgo, cidade em que nasceu e etapa final da viagem, a comitiva teve um encontro com uma equipe da revista O Cruzeiro, que cobria a viagem do já famoso autor de Sagarana, lançado em 1946.
As obras de Rosa possuem uma infinidade de referências diretas e indiretas à viagem de 1952. A principal delas está em Corpo de Baile, mais especificamente na novela "Uma Estória de Amor", inspirada na vida de Manuel Nardy, um dos oito integrantes da comitiva. Ele aparece transfigurado no personagem de Manuel Jesus Rodrigues, o Manuelzão. As semelhanças vão além do nome: estão em acontecimentos da vida do vaqueiro.
Outro vaqueiro que se destacou durante a viagem foi João Henrique Ribeiro, o Zito. Embora não tenha ficado tão famoso quanto Manuel, era Zito quem seguia o tempo todo ao lado do escritor.
Assumiu as funções de guia e de cozinheiro da tropa e tirava quase todas as dúvidas de Guimarães Rosa. Embora não tenha resultado na criação de um personagem, a relação entre Zito e o escritor também teve seu destaque na obra.
A perspicácia do vaqueiro chamou tanto a atenção de Rosa que, anos mais tarde, ele o homenagearia em Tutaméia, lançado no ano da morte do escritor. Em um dos quatro prefácios, Guimarães Rosa transcreve trechos de conversas com o vaqueiro e elogia sua inteligência e criatividade.
Dono de uma memória prodigiosa, Zito guardou detalhes da viagem de Guimarães Rosa que ajudaram a reconstituir cada passo da aventura vivida pelo escritor – incluindo nomes, lugares e datas. “Ele queria saber de tudo. Se visse aquele pau ali, queria saber o nome daquele pau. Se ouvisse uma conversa, queria saber do que a gente falava. E ia escrevendo tudo nas cadernetas que levava penduradas no pescoço”, disse, em 2001.
Segundo o vaqueiro, Rosa teria dito que pagaria seus estudos no Rio de Janeiro, proposta que ele recusou. “Queria mesmo era ser vaqueiro”. Zito morreu aos 65 anos, em 2002, em Três Marias. Foi o penúltimo dos oito vaqueiros da tropa a morrer – o último foi Sebastião Leite, em 2005.

*João Correia Filho.

domingo, 5 de novembro de 2017

LITTLE WILLOW

                      

ZUZU ANGEL

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
– Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar.

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse lamento?
– Só queria lembrar o tormento
Que fez o meu filho suspirar.

Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?
– Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar.

Quem é essa mulher
Que canta como dobra um sino?
– Queria cantar por meu menino
Que ele já não pode mais cantar.


O gênio da música popular brasileira Chico Buarque de Holanda compôs a canção “Angélica” em parceria com Miltinho do grupo MPB-4 para homenagear Zuleika Angel Jones, estilista brasileira que ficou internacionalmente conhecida como Zuzu Angel.
Mineira de Curvelo, Zuzu iniciou sua carreira na arte da costura no Rio de Janeiro no final da década de 1950. Fez muito sucesso no mundo da moda ao criar coleções originais com estampas ousadas, criando um estilo que foi sua marca registrada.
Anos mais tarde, porém, seu filho Stuart Angel Jones tornou-se um militante político e passou a atuar clandestinamente nas ações de guerrilha no combate à ditadura militar. Acabou preso, torturado e morto em um quartel do Exército em 1971.
Oficialmente Stuart era considerado um “desaparecido”, mas o preso político Alex Polari havia testemunhado as condições de sua morte na prisão. Polari escreveu a Zuzu revelando o que havia realmente ocorrido e a partir daí ela iniciou uma campanha de denúncias no Brasil e no exterior sobre as torturas e os assassinatos praticados pelos órgãos de repressão do governo brasileiro.
Zuzu criou a primeira coleção na história da moda com motivos políticos, usando estampas chocantes com silhuetas bélicas, pássaros engaiolados e balas de canhão disparadas contra anjos. E durante 5 anos, entre 1971 e 1976, ela tentou encontrar o corpo do filho, cuja prisão e morte nunca foram admitidas pelas autoridades militares.
Finalmente ela própria também acabou sendo assassinada em um “acidente” de automóvel forjado na saída de um túnel no Rio de Janeiro. Zuzu já tinha anunciado: “Se eu aparecer morta por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”.
Uma semana antes de morrer, Zuzu Angel enviou a vários intelectuais do Brasil, entre eles Chico Buarque, um documento para ser publicado caso algo lhe acontecesse. A letra da canção “Angélica” fala da força e da determinação de uma mãe que enfrentou sozinha o poder e a violência do regime militar.
O texto é composto de quatro estrofes com quatro versos cada. Todas as estrofes começam com o mesmo verso: “Quem é essa mulher?”. Esta forma de poema onde há repetição de uma frase é chamada Ritornelo, ou seja, um retorno constante ao mesmo tema.
Há ainda um paralelismo especial entre dois elementos que constituem o princípio estruturante do texto: uma voz que pergunta sobre a mulher e a voz da própria mulher justificando a busca incessante pelo filho.