segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Perfil de Amadeu de Queiroz

   "Gosto de ser agradável a mim mesmo, praticando o bem sempre que posso, sem esperar a recompensa. Não peço favores em troca de virtudes. Sempre trabalhei, honestamente, simplesmente, necessariamente, como as águas correm, como chove, amanhece, faz calor ou frio".

Quem se interessar por conhecer a história de Pouso Alegre e da região sul de Minas Gerais certamente terá que recorrer à obra do pouso-alegrense Amadeu de Queiroz. Nascido em 25 de março de 1873, Amadeu publicou vários livros, entre contos e romances, incluindo trabalhos de cunho histórico-regional, o que lhe valeu uma cadeira na Academia Paulista de Letras.
Durante a juventude em Pouso Alegre, exerceu diversas atividades, como farmacêutico, professor, político e escritor, mas seus trabalhos de literatura somente vieram realmente à tona depois que mudou-se para São Paulo, onde se estabeleceu como “prático” na Drogaria Baruel da Praça da Sé.
Nunca frequentou oficialmente uma escola, tendo sido instruído em família, especialmente pelo seu avô Policarpo Queiroz. Cresceu ajudando na farmácia do pai, Joaquim Queiroz, onde aprendeu o ofício. Desde menino demonstrava um temperamento irriquieto e perquiridor, desenvolvendo aptidões para a arte de curar, segundo os princípios éticos do humanismo.
Naquele tempo eram raros os médicos no interior do país e o trabalho desses "curadores" (ou "carimbambas", como Amadeu se auto-intitulava) era decisivo para manter a saúde da população em geral, principalmente dos mais pobres. As farmácias do interior também eram uma espécie de ponto de encontro na cidade, onde se discutia as notícias e se travava o debate político local e nacional.
Ao herdar a farmácia de seu pai, Amadeu exerceu uma militância política destacada na sua cidade natal, mantendo uma intensa correspondência com figuras proeminentes do país, como Rui Barbosa e Júlio de Castilhos. Este importante material epistolar se encontra guardado nos arquivos da Academia Paulista de Letras.
Diante do imenso atraso e das terríveis condições da política no tempo da chamada República Velha, Amadeu acabou ficando deslocado na cidade que tanto amava. Adversário das lideranças conservadoras locais e partidário das idéias democráticas do grande Rui, sentiu-se isolado e preferiu vender a farmácia, mudando-se com a família para a cidade de São Paulo em 1916, a fim de começar vida nova.
E foi justamente esta mudança que lhe despertou a necessidade de retratar, através da literatura, a vida, a história e a geografia da sua terra.

"Aqui chegamos um dia. O trem parou na Luz e aglomerou-se uma onda de povo, atropelando o nosso desembarque. Agarrou-se a mim a minha gente amedrontada e, assim, agarrados, demos o primeiro passo na vida da cidade grande. Não foi esta a única ou a última vez que o instinto de defesa, apavorado, procurou a minha proteção e, dessa, como de outras vezes, eu o acolhi bravamente, dizendo cá comigo: que será de nós?" 

Conforme descreveu Newton Meyer, historiador de Pouso Alegre e reeditor de parte da obra de Amadeu, “foi naquela buliçosa paulicéia que lhe eclodiu o gênio literário. Latente e até reprimido, o lençol ígneo da cultura, da experiência e da criatividade, jorrou da cratera de seus livros, em um rio de originalidade e graça, temperado aqui e ali pelos fumos da ironia fina, só permitida - como virtude - aos gênios” (Quase Prefácio, do livro "A história de Pouso Alegre e sua imprensa").
Seu primeiro trabalho publicado foi um soneto em versos decassílabos (Besta Fera), mas ele logo trocou a poesia pela prosa. Em 1924 venceu o Concurso Anual da Academia Brasileira de Letras, com o romance “A Praga”.
Romancista vigoroso e contista dos mais admiráveis, Amadeu de Queiroz tornou-se o “cacique” de uma famosa tribo de literatos, formada por intelectuais que frequentavam a lendária “Roda da Baruel”, no centro paulistano. Considerado discreto, mas de inteligência muito vivaz, como todo bom mineiro possuía um feitio excessivamente modesto e era avesso a cabotinismos.
Falecido em 28 de outubro de 1955, deixou um importante legado literário em obras como “Catas”, “Dos 7 aos 77, “A história de Pouso Alegre e sua imprensa”, “Histórias quase simples”, “Casos de Carimbamba”, "Senador José Bento", “Praga de Amor” e “A Voz da Terra”. 

"De mim ficou uma lição de trabalho e um exemplo de perseverança. Vivo, fui modelo para os jovens. Agora sou um mandamento. Nada mais obstará que minha voz continue como a voz do vento e dos mares. Sou livre, sou infatigável, sou eterno. Estou mais vivo afinal. Não tenho a pretensão de ser imortal, porque acho esta vida mais que bastante".