QUADRILHA


E neste ano, como todo ano, uma vez por ano, tem quadrilha no arraial! E neste ano, como sempre, salvo chuva e salvo engano, a satisfação é geral! Não me leve a mal, não me leve a mal! O forró corria manso, sem problema e sem vexame, quando o chefe da quadrilha decretou changer-de-dame, a mulher do delegado rendeu o bacharel! O peão laçou a jovem filha do coronel! A Terezinha Crediário deu um passo com o vigário, a beata com o sacristão, diz que a senhora do prefeito merecidamente eleito foi com o líder da oposição! Não tem nada não, não tem nada não! Zé-com-fome deitou olho na patroa do seu Lima, que não faz xodó na moça, mas também não sai de cima, Juca largou a sanfona e abandonando o salão foi prevaricar com a dona que vendia quentão! E foi doente com doutora, indigente e protetora, foi aluna com professor e o perigoso bandoleiro Zé Durango, "el justicero'', fez beicinho pro promotor! Mas faça o favor, mas faça o favor! O forró estereofônico estava mesmo um barato, muita música na praça e muita dança lá no mato! Quem gozou da brincadeira, muito bom, muito bem, quem tomou chá de cadeira, só no ano que vem! Pois nesse ano, como todo ano, uma vez por ano, tem quadrilha no arraial! E nesse ano, como sempre, salvo chuva e salvo engano, a satisfação é geral! Ninguém leva a mal, ninguém leva a mal!

(Francis Hime/Chico Buarque)